A terapia de reposição hormonal (TRH) é, há décadas, uma das principais estratégias para o controle dos sintomas da menopausa, especialmente quando há impacto significativo na qualidade de vida. Fogachos intensos, distúrbios do sono, alterações de humor e sintomas geniturinários são queixas frequentes e, muitas vezes, limitantes. No entanto, quando se trata de mulheres com histórico de câncer de mama, essa discussão se torna mais delicada. E, ao mesmo tempo, mais atual do que nunca.
Até o momento, os principais guidelines internacionais são consistentes em um ponto: a terapia de reposição hormonal sistêmica permanece contraindicada para mulheres com diagnóstico prévio de câncer de mama, especialmente nos casos de tumores hormônio-dependentes. Essa recomendação se baseia em estudos que sugeriram aumento no risco de recorrência da doença em determinados contextos, além do conhecimento biológico de que o estrogênio pode estimular o crescimento de células tumorais em tumores sensíveis a hormônios. Por esse motivo, a TRH ainda é considerada, na prática clínica atual, uma estratégia proscrita nesse grupo de pacientes.
Nos últimos anos, porém, essa visão passou a ser questionada de forma mais consistente. Grande parte das evidências que sustentaram essa contraindicação deriva de estudos realizados há mais de duas décadas, com limitações importantes, como populações heterogêneas, diferentes tipos de terapia hormonal analisados em conjunto e ausência de estratificação adequada de risco. Além disso, estudos observacionais e análises mais recentes têm mostrado que o risco associado à terapia hormonal não é uniforme. Ele varia de acordo com o tipo de hormônio utilizado, o tempo de uso, a idade de início e, principalmente, o perfil individual da paciente.
Esse conjunto de dados tem levado à reinterpretação de conceitos que, por muitos anos, foram considerados definitivos. E essa reavaliação não ocorre apenas no meio acadêmico: ela também começa a se refletir em decisões regulatórias e no debate público.
Em 2025, autoridades de saúde dos Estados Unidos iniciaram um processo de revisão das informações de segurança relacionadas à terapia hormonal da menopausa, reconhecendo que os riscos podem ter sido historicamente superestimados ou mal interpretados em determinados contextos.
Além disso, especialistas têm reforçado que os efeitos da terapia hormonal dependem de fatores como idade, tempo desde a menopausa e características clínicas individuais, o que torna inadequada uma abordagem única para todas as pacientes. Esse movimento marca uma transição importante: sair de uma lógica baseada em restrição generalizada para uma abordagem mais crítica e individualizada.
Talvez o ponto mais relevante hoje seja este: a decisão sobre terapia hormonal não deve ser padronizada. A avaliação precisa considerar múltiplos fatores, incluindo o tipo de tumor, o risco de recorrência, o tempo desde o diagnóstico, os sintomas apresentados e o impacto desses sintomas na qualidade de vida. Isso significa que duas pacientes com histórico de câncer de mama podem ter recomendações completamente diferentes, mesmo diante da mesma queixa.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que o tratamento dos sintomas da menopausa também faz parte do cuidado oncológico. Ignorar esse aspecto pode comprometer significativamente a qualidade de vida e a adesão a outras terapias.
Embora o cenário esteja em transformação, é fundamental manter clareza sobre o momento atual. A terapia de reposição hormonal sistêmica ainda não é recomendada, de forma geral, para mulheres com histórico de câncer de mama. Essa continua sendo a orientação vigente.
No entanto, há um movimento crescente na literatura médica no sentido de revisar essa posição, à luz de novas evidências e de uma compreensão mais aprofundada dos riscos reais. O que se desenha para o futuro é uma medicina menos baseada em proibições absolutas e mais centrada na avaliação individual, na estratificação de risco e na tomada de decisão compartilhada.
A discussão sobre terapia de reposição hormonal após câncer de mama está longe de ser definitiva. Hoje, convivemos com duas verdades importantes: de um lado, recomendações ainda conservadoras; de outro, evidências em evolução que apontam para um cenário mais complexo e menos uniforme. Nesse contexto, a personalização deixa de ser apenas um conceito e passa a ser uma necessidade clínica. Mais do que decidir entre “pode” ou “não pode”, o desafio atual é entender para quem, quando e em quais condições essa decisão pode ser considerada, sempre com base em evidência, cautela e individualização.
Referências Bibliográficas:
- Menopause Society. Menopausal hormone therapy for breast cancer patients: what is the current evidence? Menopause. 2026;33(1).
- Collaborative Group on Hormonal Factors in Breast Cancer. Type and timing of menopausal hormone therapy and breast cancer risk: individual participant meta-analysis of the worldwide epidemiological evidence. Lancet. 2019;394(10204):1159-1168.
- Breast Cancer Research Foundation. Hormone replacement therapy and breast cancer risk: current evidence and clinical considerations. Breast Cancer Res. 2023.