O câncer de mama é a neoplasia mais frequente entre mulheres, com aproximadamente 2,3 milhões de novos casos diagnosticados no mundo a cada ano. A incidência em mulheres jovens tem aumentado gradualmente nas últimas décadas. Embora a prevalência em mulheres com menos de 40 anos compreenda apenas uma pequena proporção de todos os casos, estudos baseados em registros demonstram um aumento médio anual na incidência de até 2,6%.

Nos EUA, dados recentes mostram que a incidência anual de câncer de mama cresceu aproximadamente 1,4% entre 2012 e 2021, sendo esse aumento mais acelerado justamente entre mulheres mais jovens quando comparado às mulheres pós-menopáusicas. Tendência semelhante foi observada no Brasil e Europa.

No Brasil, de acordo com o estudo AMAZONAS, 16,5% dos diagnósticos de câncer de mama ocorrem em pacientes com menos de 40 anos.

Esse fenômeno tem despertado atenção médica, científica e social, uma vez que mulheres jovens, em geral, não realizam rastreamento mamográfico de rotina, o que torna o diagnóstico frequentemente mais tardio. Essas mulheres têm maior probabilidade de apresentar doença em estágio IV, com características mais agressivas, além de maior risco de morte relacionada ao câncer. Isso é ainda mais evidente no câncer de mama receptor hormonal positivo (RH+), em que mulheres pré-menopáusicas RH+ e HER2 negativo apresentam taxas mais elevadas de recorrência e mortalidade. 

Importante destacar que essas pacientes têm maior probabilidade de experimentar efeitos colaterais do tratamento como infertilidade e um risco aumentado para depressão, ansiedade, isolamento, imagem corporal negativa e desafios relacionados ao trabalho por conta de problemas financeiros decorrentes de redução de carga horária laboral e desemprego.

Em relação as causas desse aumento, elas parecem ser multifatoriais, envolvendo determinantes hormonais (como adiamento da maternidade, redução da amamentação, declínio da fertilidade e uso crescente de contracepção hormonal), além de modificações no estilo de vida relacionadas a dieta, sedentarismo, consumo de álcool e estresse, somadas à exposição a poluentes, radiação, fatores genéticos e epigenéticos ainda em investigação. Outro aspecto relevante é a predominância do aumento em tumores receptores hormonais positivos, especialmente, sugerindo possível vínculo com mudanças reprodutivas e endocrinológicas de longo prazo.

 

Adicionalmente, no Brasil há particularidades que podem influenciar esse cenário, incluindo barreiras de acesso a diagnóstico e tratamento oportunos, desigualdades regionais, atraso no início da investigação, ausência de cobertura do teste genético germinativo no sistema público e ausência de políticas específicas para jovens em risco elevado. 

A elevação da incidência de câncer de mama em mulheres jovens traz implicações diretas para prevenção, rastreamento, educação populacional e formulação de políticas de saúde, além de reforçar a urgência de pesquisas voltadas para identificação de novos fatores de risco, biomarcadores precoces e estratégias de detecção em populações jovens ainda não cobertas pelo rastreamento tradicional. Ao mesmo tempo, destaca a necessidade de expandir o aconselhamento genético, aprimorar linhas de cuidado específicas para mulheres abaixo dos 40 anos e promover maior conscientização entre médicos e pacientes sobre sinais de alerta e fatores de risco modificáveis. 

 

Referência Bibliográfica:

  1. Ellington T. D., Miller J. W., Henley S. J., Wilson R. J., Wu M., and Richardson L. C., “Trends in Breast Cancer Incidence, by Race, Ethnicity, and Age Among Women Aged ≥ 20 Years—United States, 1999–2018,” MMWR. Morbidity and Mortality Weekly Report 71, no. 2 (2022): 43–47.

 

  1. McShane N, Zaborowski A, O’Reilly M, McCartan D, Prichard R. Hormone receptor positive breast cancer in young women: a review. J Surg Oncol. 2025 Mar;131(4):580-586. Epub 2024 Oct 29. doi:10.1002/jso.27963. PMID: 39470669. PMCID: PMC12065450.

 

  1. Rosa DD, Bines J, Werutsky G, et al: The impact of sociodemographic factors and health insurance coverage in the diagnosis and clinicopathological characteristics of breast cancer in Brazil: AMAZONA III study (GBECAM 0115). Breast Cancer Res Treat 183:749-757, 2020